A importância do conhecimento taxonômico para a conservação da biodiversidade

RODRIGUES, Miguel T

Universidade de São Paulo, Instituto de Biociências, Departamento de Zoologia, Rua do Matão, 101, CEP: 05508-090, São Paulo, SP, Brasil.

* mturodri@usp.br

Apoio financeiro: FAPESP, CNPq

Uma boa taxonomia foi sempre indispensável na área das ciências biológicas. Esta é uma das razões pelas quais somos tão rigorosos na escolha do material vivo ou preservado para nossas pesquisas, envolva ele moléculas, conjuntos de células, indivíduos, populações, espécies ou quaisquer agrupamentos supraespecíficos. É indispensável que as categorias hierárquicas da vida que estudamos estejam bem delimitadas. Não é possível compreender a evolução ou a distribuição geográfica de uma espécie, ou grupo de espécies, sem uma taxonomia fina. Ao longo da história humana nosso requinte em classificar foi se aperfeiçoando. Numa fase mais inicial, e por assim dizer “animal”, agrupávamos tudo por semelhanças utilizando poucos caracteres, sem discriminá-los. Por exemplo, uma ave ou um macaco identificam cobras corais como fazíamos há pouco, por semelhança grosseira do padrão de colorido, seja ela verdadeira ou falsa, pois elas representam perigo. Não há interesse em refinar a escolha, pois não estão interessados nas relações históricas entre elas, apenas em evitá-las. Mais recentemente, interessados em recuperar informações sobre parentesco, passamos a utilizar múltiplos caracteres, distinguindo entre convergências (homoplasias), caracteres primitivos (plesiomorfias) e derivados (apomorfias). Esta descoberta, que surge com o advento da sistemática filogenética, contribuiu muito para aperfeiçoar a taxonomia permitindo avanços paralelos em todos os ramos da investigação biológica, incluindo a conservação. Em grupos mais complexos, formados por espécies para nós ainda crípticas ou pouco estudadas, o avanço crescente das técnicas moleculares vem causando revolução semelhante. Espécies consideradas homogêneas passaram a mostrar níveis tais de divergência genética apenas compatíveis com a hipótese de que agrupavam uma diversidade muito superior à que até então se admitia. Do ponto de vista da conservação este conhecimento é fundamental. Somente poderemos adotar medidas de conservação adequadas se tivermos um conhecimento refinado da taxonomia dos alvos de preservação. Uma taxonomia imprecisa pode inadvertidamente condenar à extinção táxons importantes que conseguiríamos preservar com base em conhecimento taxonômico adequado.

Palavras-chave: taxonomia, classificação, sistemática.