Gaia, Medéia e o monstro de Frankenstein

LANGER, Max C.*

Laboratório de Paleontologia, FFCLRP-USP, 14040-901, Ribeirão Preto-SP, Brasil

* mclanger@ffclro.usp.br

Apoio financeiro: FAPESP, CNPq

Em contraponto à mais bem conhecida Hipótese Gaia, desenvolvida durante os anos sessenta pelo cientista inglês James Lovelock, e exaustivamente discutida desde então, o paleontólogo estadunidense Peter Ward recentemente propôs a chamada Hipótese Medéia. Ao contrário da Hipótese Gaia, que sugere que a resiliência derivada dos ciclos biogeoquímicos aumentaria a capacidade da biota terrestre de sobreviver a alterações ambientais causadas por eventos externos, a Hipótese Medéia sugere que os principais eventos de perda de biodiversidade da história do planeta foram causados pelos próprios organismos. Com base em tais proposições praticamente consensuais, desdobram-se interpretações altamente controversas, que imputam intencionalidade à dinâmica contingente de nosso sistema planetário. Assim, surgem idéias de que a biosfera funcionaria como um superorganismo semi-consciente, mantendo estáveis as condições ótimas para sua sobrevivência (Hipótese Gaia), ou que a vida na Terra é “suicida”, sempre conspirando para sua auto-destruição (Hipótese Medéia). Seguem-se metáforas envolvendo as figuras da mitologia Grega que dão nome às hipóteses. Gaia, o ser primal que representa a “Mãe Natureza”, mantenedora do equilíbrio ente o caos e a ordem, e Medéia, a mãe “desnaturada” que assassina seus próprios filhos. Evidentemente, estas se tratam de antropomorfizações de sistemas maiores, que encerram a espécie humana. Talvez inevitáveis na busca subjetiva por conhecimento empreitada pelos próprios seres humanos. Contudo, isso deveria ser evitado em nome de um entendimento mais transparente dos processos bióticos e abióticos que regem a dinâmica terrestre. Por outro lado, como parte deste sistema, quem sabe não somos estudos de caso adequados, espelhos da “mecânica” universal. Desta forma, e não fugindo à regra, uma metáfora mais adequada para a vida na Terra, ou para aquela de seus membros, talvez seja a do Monstro de Frankenstein. Composto de partes recicladas de sistemas pretéritos, movido pela mesma força que os consumiu, inclui porção que se entende consciente, e que fatalmente acaba à caça de seu criador. Fica claro que este também serve de metáfora à busca por transcendência implícita às leituras mais ingênuas das duas hipóteses aqui tratadas.

Palavras chave: extinções, Tempo Geológico, evolução