Diversificação de aves da Floresta Atlântica: filogeografia e demografia histórica de espécies endêmicas.

F. M. d`Horta 1; G. S. Cabanne 1,2; R. O. Pessoa 1,3; C. Y. Myiaki 1

1 Departamento de Genética e Biologia Evolutiva, Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo, Rua do Matão 277, 05508–090, São Paulo, SP, Brazil.

2 Instituto de Biotecnología – INTA Castelar, Av. Pedro Díaz 1798 (1686) Hurlingham, Buenos Aires, Argentina.

3 Laboratório de Zoologia, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Estadual de Montes Claros, Av. Rui Braga, s/n. Vila Mauricéia, 39401-089, Montes Claros, Minas Gerais, Brazil.

Email: fmhorta@usp.br

No presente trabalho nós apresentamos uma síntese de estudos de diversificação intra-específica, realizados com base em marcadores mitocondriais e nucleares, de seis espécies de aves endêmicas da Floresta Atlântica (FA): Sclerurus scansor (SS), Automolus leucophtalmus (AL), Xiphorhynchus fuscus (XF), Schiffornis virescens (SV), Conopophaga lineata (CL) and C. melanops (CM). As estimativas de tempo de divergência entre essas espécies da FA e suas espécies irmãs (táxons andinos ou amazônicos) apontam para uma origem das linhagens da FA entre o Plioceno Superior e o Pleistoceno Inferior. Das seis espécies estudadas, quarto exibem uma clara estrutura filogeográfica (SS, XF, CL e CM), enquanto para as demais nenhuma estrutura foi identificada (AL e SV). Comparações entre as espécies que apresentam estruturação evidenciam uma alta congruência na distribuição geográfica das linhagens. Três quebras biogeográficas principais foram identificadas: 1) região das cabeceiras do Rio Paraíba do Sul, 2) Rio Doce e 3) Rio São Francisco. As estimativas de tempo de divergência entre as linhagens, para todas as espécies analisadas, apontam para o Pleistoceno. Todas as espécies que ocorrem ao norte do Rio São Francisco (SS, XF e CM) apresentam um primeiro evento de cladogênese separando essas populações daquelas que ocorrem ao sul deste rio. As topologias que representam as relações entre as linhagens do sul do Rio S. Francisco, por outro lado, não são congruentes. Os resultados das analises demográficas sugerem diferentes histórias associadas à diferentes regiões da FA. Em todas as espécies estudadas, grandes mudanças no tamanho efetivo populacional são registradas para as populações do sul da FA. Por outro lado, as populações da região central da FA permaneceram mais estáveis. Para linhagens de SS e XF associadas à região norte da FA foram detectados sinais de recente gargalo populacional. As espécies não-estruturadas (AL e SV) também exibem claro sinal de expansão demográfica. O tempo desde a expansão foi datado para o Pleistoceno Superior para todas as linhagens, incluindo aquelas de espécies que não-exibiram estrutura filogeográfica. Nossos resultados sugerem fortemente que as mudanças climáticas do Pleistoceno tiveram profundas influências na evolução das aves da FA, moldando a distribuição atual das linhagens intra-específicas, assim como os padrões de níveis de estruturação e diversidade genética entre regiões da FA.